Quando tinha em torno de uns 4 ou 5 anos, eu tinha um problema crônico de insônia. Na verdade não insônia no sentido de que eu não conseguisse dormir, mas no sentido de que se eu acordasse no meio da noite por qualquer razão que fosse, eu não dormia de novo. Do que me lembro desses tempos, acho que eu acordava e começava a pensar tanto em qualquer coisa – o iogurte que eu ia tomar na escola, a forma das letras, o quadrinho do cascão – que eu não conseguia mais pegar no sono.
O pior é que, como criança, depois de um tempo acordado, rolando na cama, pulando nela um pouco, eu ficava entediado e começava a acordar quem tivesse na minha frente. “Vai ver a mãe”, dizia minha irmã. “Vira pro lado e conta até dez sem pensar em nada”, dizia minha mãe. Eu voltava falando que não tinha dado certo. “Então fica quietinho esperando que o sono vem”. “Mãe, não veio, e daí?”. “Chama seu pai”.
Meu pai então sempre pagava o pato pela minha falta de vontade de dormir. Como no dia seguinte ele tinha sempre que estar no pronto socorro, ele uniu seus conhecimentos em eletrônica com seu amigo dono de locadora videolocadora e começou então a copiar um monte de filmes que tivesse na locadora – Branca de Neve, Pinóquio, A Bela e a Fera, Turma da Mônica e a Sereia, As Melhores Aventuras de Tiny Toon. Um dia lembro dele, antes de eu ir dormir: “Filho, se você acordar, aperta esse botão aqui que é o power nesse controle, depois aperta essa aqui no outro controle que é o play e assiste”.
O tiro saiu pela culatra. Dormia só porque minha mãe falava pra minha irmã se certificar que eu ia dormir, mas já pensando em ver o novo filme. Aquela velha coisa de criança de ver o mesmo filme várias e várias vezes, até o infinito, aprendendo todas as falas, decorando todos os pedaços legais. Com a exceção de que acho que poucas crianças faziam isso no tempo do vhs, e se faziam, acho que não era de noite, e se faziam, acho que não aprenderam tão rápido a copiar uma fita sozinhas, e se faziam, não aprendiam a escalar o móvel da televisão pra enviar a fita que quisessem.
Eu virei um megalômano. Queria sempre mais filmes, sempre dormir menos, sempre preferia ir na locadora do que na casa dos meus amigos. Lembro claramente de um final de semana do qual eu devo ter levantado do sofá apenas pra comer e ir no banheiro. Claro que além de ficar puta por perder o Faustão, minha mãe ficou preocupada. Como minha família inteira é de médicos, sugeriram que poderia ser um monte de problemas – tireóide, hormônios, devem até ter sugerido que eu estava com raiva – e lá ia eu por lugares frios, estranhos, com um monte de homem de branco que cheirava a algodão, apenas com a íntima certeza que eu ia pegar o pirulito de morango no final.
Depois de muito tempo, minha mãe decidiu me levar numa psicóloga infantil que era amiga dela de faculdade. Cheguei na sala de brinquedos na qual ela conversava com as crianças. Ela me deu um almanacão da turma da Mônica e pediu pra eu pintar. Comecei, achei chato. Ela falou pra brincar de ligar os pontos. Chato. Jogo dos Sete Erros. Mais chato. Perguntei se podia ler as histórias. Do que lembro da época, acho que ela ficou surpresa – não sei se já tinha sido alfabetizado, mas de qualquer forma, para ela era muito cedo pra querer ler e compreender uma história. Li a história. Era do Astronauta.
Depois disso, ela chamou minha mãe, já no escritório mesmo dela. Não lembro exatamente o que ela falou pra minha mãe, afinal de contas, pedi outro pirulito de morango e depois de um tempo comecei a brincar de campo minado no computador dela. Mas pelo que minha mãe me conta, não é que eu era hiperativo, eu apenas tinha muita vontade de “exercer narrativa”. Não sei o que exatamente ela quis dizer, mas de fato gostava demais de histórias, de filmes, e minha mãe não deveria se preocupar com isso segundo ela.
Na hora de ir embora pedi o almanacão pra ela. Minha mãe morreu de vergonha, mas ela me eu o almanacão, rindo. Acho que perdi ele logo depois, mas desde aquele dia, minha mãe nunca mais se importou se eu ficasse até tarde assistindo filmes, lendo, ficando no computador. E com o tempo eu também comecei a dormir melhor.
Queria saber o que aconteceu com aquele almanacão.
enviado por: Gabriel Jubé.
19 anos, estudante de Comunicação Social – Midialogia na Unicamp